segunda-feira, 25 de junho de 2012

Família, ahh família!

" Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir, mas a vida sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente... Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Manière; Família ao Molho Pardo (em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria). Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo.
Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."
 



Trechos do livro "O arroz de Palma" de Francisco Azevedo :)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Gilberto


Ele era laranja e media aproximadamente 12 centímetros.
Era lindinho, mas solitário.
Morava em um quadrado estreito, sem enfeites ou plantas, apenas água por todo lado.
Não parecia ser feliz, não demonstrava nenhuma reação de afeto, nem mesmo quando me aproximava.
Ao contrário, parecia se assustar, ou talvez, orgulhoso que só ele, queria fazer com que me afastasse e fosse embora, o deixando em paz.
Sempre gostei dele, gostei muito dele.
Acho que não ficamos muito tempo amigos...
Mas, quando morreu... Ai que dor no meu coração!
Nem pude acariciá-lo enquanto vivo.
Nem mesmo tocá-lo me era possível.
Só o observava de longe, e admirava aquela cor laranja forte, contrastando com riscos brancos que vinham da barriga até perto da altura dos olhos.
Ah, aqueles olhos que nunca fecharam! Nem mesmo depois de morto...
Gilberto, Gilberto... Ah Gilberto!
Obrigada por ter existido por pequenos minutos essa noite em um sonho.
Mesmo morrendo, mesmo me fazendo ficar triste, posso sorrir, por saber que tive você.
Nunca tinha tido um peixe, ou talvez, nunca Tive um peixe...
Mas Gilberto foi real, até seu nome me lembro, e lembro que também ajudei nessa escolha.
Pode ser um bonito nome para um peixe, não?

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Como Homeopatia

Estou meio emotiva esses dias, precisando desabafar nas palavras que há tempos não são escritas...
Tanta coisa nova, não!?
Faculdade, só em si tem seu peso, ainda mais complicado com trabalho, piora se falar que estou em uma semana de provas? E hoje, em plena sexta-feira 13... tem uma de anatomia...

Os últimos dias foram intensos em todos os sentidos...
E parece que está faltando um pouco meu ar.
Só mais um dia, só mais um dia...
Em doses homeopáticas vão se passando... gota a gota...

Sabe, ao mesmo tempo que dá um desespero gigante pela imensidão de coisas que vão se formando, dá para ficar feliz com as maravilhas que realizamos, conquistas que alcançamos, como tirar carta, ir pra sumaré dirigindo, fazer o carro morrer um em sinaleiro à noite...
Ah que experiência fantástica! Pois é de erros que é feita a vida, é de erros que nos tornamos humildes para aceitar que nem tudo é perfeito e nem tudo é do jeito que a gente quer, mas, às vezes é do jeito que tem que ser.

Vejo coisas que passaram, e vejo como cresci.
Há lados bons e nem tão bons nisso.
Porque a vida toma rumos que às vezes não planejamos, nos pega de surpresa, e sempre vai causar uma coisinha aqui dentro.
Uma coisinha que sempre fez um sentido enorme.

As coisas são suaves, e de certa forma doces.
Aprendi essa palavra com uma amiga que agora vive escrevendo isso.
Essa palavra dá uma sensação de alívio, no meio de um vendaval.

Então, que seja doce nossas vidas, todos os dias!


domingo, 11 de março de 2012

Elevar-se

"As coisas que o mundo oferecia, me impediam de Te encontrar, de ver que a vida e só em Ti!
Mas, Tu vieste e tocaste, bem no fundo do meu coração, me ensinaste a Te amar.

Oh Jesus, recebe então a minha vida,
Recebe as coisas que de Ti me afastam
Pois só em Ti quero viver!


Agora, que o meu coração é Teu, quero sempre Te louvar, tua vida transbordar.
Para que mais gente experimente Teu amor nos transformando, tua mão a nos tocar." ♥

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

As duas velhinhas

" Duas velhinhas muito bonitas,
Mariana e Marina,
estão sentadas na varanda:
Marina e Mariana. 

Elas usam batas de fitas,
Mariana e Marina,
e penteados de tranças:
Marina e Mariana.

 Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e Marina,
em xícaras de porcelana:
Marina e Mariana.

 Uma diz: "Como a tarde é linda, não é, Marina?"
A outra diz: "Como as ondas dançam, não é Mariana?"
"Ontem, eu era pequenina", diz Marina.
Ontem, nós éramos crianças", diz Mariana.

E levam à boca as xicrinhas,
Mariana e Marina,
as xicrinhas de porcelana:
Marina e Mariana. 

Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e Marina,
e falam de suas lembranças
Marina e Mariana. "

- Cecília Meireles.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Papai

Sabe, é difícil para um pai ver seus filhos crescerem.
Deve ser gratificante, vê-los se dando bem na vida, trabalhando, estudando.
Mas, deve ser difícil.
Esses dias estava em frente de casa com minha poodle.
Uma moça simpática parou e começou a acariciá-la.
Disse que queria muito uma igual, que a sua havia morrido semanas atrás. Fiquei com dó. Pensei que também ficaria bem triste no lugar dela.
Ela queria que eu cruzasse minha poodle com um cão que ela conhecia e que, segundo ela, era mansinho.
Não gostei. Não gostei de jeito nenhum.
A minha poodle!? Cruzar? Com um cão que eu nem conheço? E se for machucá-la? E se ela não quiser? Eu não vou estar perto para protegê-la...

Depois, pensando nisso minutos antes de dormir, juntei os fatos.
Ser pai é um dom. Ter pai é um privilégio.
Ele deve pensar a mesma coisa que eu pensei.
E se meus filhos arrumarem pessoas que vão machucá-los? Pessoas que eu não conheço e por isso, talvez não sejam confiáveis? E se eu não puder protegê-los?

É difícil crescer. Difícil pra quem cresce e difícil também pra quem observa.
Até então éramos crianças inocentes, que brincavam de boneca, carrinho, barbie, lutinha, bola.
Éramos unidos. Éramos só nós.
Acredito que o amor mais puro que existe é esse, de pai pra filho, vice-versa.
O tempo se encarrega de trazer e levar embora pessoas que aprendemos a amar.

Ele sempre estará lá.
E eu sempre estarei aqui, papai.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cor

Chuvas são boas.

Levam e trazem águas, lágrimas, mágoas.
Levam e trazem sorrisos, beijos, abraços.
Levam e trazem sonhos, lembranças.
Levam e trazem cores.

Cores das mais variadas pessoas.
Já reparou como a chuva é linda?
É colorida também.
Mal cai e já vem um protetorzinho colorido na mão de alguém.

Uma senhora de sombrinha amarela,
O rapaz com um guarda-chuva preto, grande.
A mocinha com uma de joaninha,
Alguns floridos, outros listrados,
Alguns para combinar com a roupa,
Outros para descombinar...

Cada chuva com uma melodia diferente.
Às vezes grave, querendo destruir tudo e todos,
Às vezes aguda, com granizos batendo nos vidros,
Às vezes em compassos de canções de ninar, calma, regando plantas, trazendo vida.


"Oh chuva, eu peço que caia devagar, só molhe esse povo de alegria, para nunca mais chorar" ♪