quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um porteiro

Hoje, fumando meu cigarro, vejo minha vida passar.
Vejo flashes que nunca vou esquecer.

Vou lhes contar uma história, a história de uma vida,
A vida de um homem que agora é porteiro.
A vida de um homem que esqueceu de viver há muito tempo.

Nasci na Angola, África.
Engraçado, temos sempre a visão de um negro forte, grande, alto.
Pois sou exatamente o oposto.
Sou branco, de olhos claros, baixo e magro.
Agora já possuo cabelos brancos, mas meu cigarro sempre me acompanhou.
Ele foi meu fiel amigo, durante anos.
Sempre gostei de ler. De estudar.
"Capitães da Areia", que hoje faz sucesso, eu já havia lido há anos!
Jorge Amado, com meu querido " Gabriela, cravo e canela "
Quantos clássicos!
Quando morava na Angola, sabia mais sobre o Brasil, do que quando vim para cá.
Conhecia cidades,capitais, estados... Sem realmente ter os conhecido.
Hoje, ninguém sabe mais de nada.
Ninguém lê, ninguém se interessa.
Bom, se não interessa à ninguém,
não vou perder tempo com isso.

Quando tinha vinte anos, fui mandado ao exército.
Ninguém escapava. Vinte anos era a idade ideal.
A gente era obrigado.

Vi a vida e a morte em um mesmo instante.
Parece irreal pensar assim... Mas, vi.
Pensei ter morrido várias vezes.
Pensei ter ouvido gritos, mesmo quando não havia ninguém ao lado.
Pensei que a vida era pra ser vivida, sonhada.
Pensei que fosse fácil viver.
Ninguém nunca me disse, como os seres humanos são cruéis.
Eu fui cruel.

Eu matei.
Não morri, mas também não vivo.
As lembranças ainda me atormentam.
Os gritos, os tiros...

Hoje, aqui, sentado, fumando meu cigarro,
Vejo minha vida... Me vejo em lugares que pensei nunca conseguir sair.

Ninguém nasce querendo ser porteiro.
Um sonho para a vida, uma profissão desejada.
Hoje, sou porteiro.
Me vejo velho, cansado.
Hoje, as coisas mudaram...
Mas, de certa forma, ainda são as mesmas.

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