quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um bebê

Ela é um bebezão.
Ao mesmo tempo em que chora por tudo, sorri por tudo.
Tem um sorrisinho no rosto a maior parte do tempo.
Parece não ter preocupações, inquietações.
Tem medo do escuro.
Não gosta de dormir sozinha.
Não gosta de ficar sozinha.
Não pode ficar sozinha.
Tem um cabelo preto encaracolado que vai até a cintura.
Todo dia vem com aquele sorrisinho: - Prende pra mim?
Cinquenta mil voltas para aquele cabelo caber todo dentro da touca.
Ela fica quietinha com a cabeça pra baixo, parecendo uma menina que a mãe arruma pra ir pra escola.
Ontem ouvi um grito na cozinha.
Pensei: "É mais um chorinho sem motivo"
Lá veio ela, com quase lágrimas nos olhos e o dedinho escorrendo um líquido vermelho.
"Ué, dessa vez é sério" - fui ao seu encontro.
- Olha chefinha, olha o que eu fiz!
Embrulhei seu dedinho em um papel e a trouxe até o estoque.
- Vamos ver o que você aprontou nesse dedo!
- Ai, ai, ai, eu não quero ver!! - virou o rosto.
Fui limpando, e tentando ver a gravidade.
A faca havia cortado até a metade do dedo indicador, junto com um pedaço da unha.
Fiz um curativo com gaze e esparadrapo, lembrando os curativos feitos por papai quando criança, e até mesmo depois de (quase) adulta.
Dei um beijnho na mão e disse: - Quando casar, sara.
Fez seu sorriso de menina e disse: - Você leva jeito pra isso, chefinha, podia ser enfermeira.
Quando ler a parte em que ela fala, acrescente um sotaque nordestino.
Isso vale pra quando ela está brava. - Sua chica preta!
Não sei o que isso quer dizer...
Ela adora dar presentes. Só esse ano recebi uns quatro.
Dizendo assim, parece mesmo uma criança, mas já é casada.
A maior parte da família vive no nordeste.
Não tem filhos. Morre de medo das dores do parto.
Vive aqui, com o marido. 
Ela mata e morre por esse homem!
- Oh chica preta, não perca esse sorriso risonho que ilumina minhas manhãs, dentro dessa cozinha minúscula.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

É,

certas coisas, não mudam.

Minha cozinha

Na minha cozinha já teve homem de chapeuzão branco,
Já teve mulher com prancheta na mão e caneta vermelha,
Já teve evangélica com músicas de louvor o dia inteiro,
Já teve brigas,
Teve surpresas,
Teve abraços,
Na minha cozinha já tive duas grávidas,
Já tive calor, muito calor,
Já tive rabugentas,
Já tive irresponsáveis,
Na minha cozinha já tive que cozinhar,
Já estive sozinha,
Da minha cozinha já saiu maravilhas,
E também saiu coisas nem tão gostosas assim,
No meu refeitório já tive reclamações,
Já tive elogios,
Já tive festas,
Já teve brigas,
Já teve sorrisos,
No meu refeitório tem flertes,
Tem enfeites,
No meu estoque já chorei,
No meu estoque já sorri,
No meu estoque já passei sufocos sem fim,
Já fiquei tranquila,
No meu estoque já quis abrir leite condensado,
Já quis comer sobremesas,
No meu estoque já achei um sapo!
No meu estoque já passei um calor dos infernos!
E também frio de bater os dentes,
O meu estoque já foi meu refúgio,
No meu estoque já quis nunca mais entrar,
Na minha empresa já apareceu morcego,
Já apareceu tucano,
Já apareceu joão-de-barro,
Já apareceu cobras,
Na minha empresa, existem cobras.
Cobra bicho, e cobra pessoa.
É melhor não mexer.
Porque como dizem, 'não mexe que fede'.
A gente aprende, não é?